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Carta às mães ...

... mais que perfeitas.

detalhe de ilustração de Claudia Tremblay

Querida Mãe: 

Eu já te vi por aí. 
Eu vi-te a gritar com os teus filhos em público, vi-te a ignorá-los no parque, vi-te a levá-los à escola antes de teres tomado banho, e de calças de pijama por baixo do casaco.
Eu vi-te a implorares aos teus filhos, vi-te a suborná-los, e a ameaça-los.
Eu vi-te a gritar feita louca com o teu marido, com a tua mãe, e com o agente de polícia no cruzamento da escola.
Eu já te vi a correr com os miúdos de um lado para o outro, a sujares-te no parque e a praguejares em voz alta depois de bateres com o joelho na esquina da cadeira.
Eu vi-te a partilhares um leite achocolatado com um maníaco de 4 anos.
Vi-te a limpar o nariz dos teus filhos com os dedos e a limpa-los na parte de trás das calças de ganga.
Vi-te a correr com o teu bebé de 2 anos pendurado na dobra do teu braço, para apanhares a bola que está a fugir para a estrada.
Eu já te vi a ranger os dentes enquanto o teu filho gritava contigo porque não queria ir à aula de piano, à natação, ou ao treino de futebol.
Eu vi-te a fechar os olhos e a respirar fundo depois de entornarem um copo de leite inteiro em cima.
Vi-te a chorar desesperada enquanto tentavas tirar lápis de cera da tua melhor mala.
Eu já te vi na sala de espera do hospital. Eu vi-te no balcão da farmácia.
Vi-te com o teu olhar cansado e assustado.

Eu não sei se tinhas planeado ser mãe ou não. 
Se soubeste desde sempre que querias pôr crianças neste mundo, cuidar deles, ou se a maternidade te apareceu de surpresa.
Não sei se correspondeu às tuas expetativas, ou se passaste os primeiros tempos como mãe aterrorizada porque tinhas imaginado que sentirias o “amor materno” doutra forma.
Não sei se tiveste dificuldade em engravidar, se perdeste algum bebé, ou se tiveste algum parto traumático.
Nem sequer sei, se concebeste o teu filho no teu ventre, ou se o acolheste na tua família.

Mas eu conheço-te. 
Eu sei que não alcançaste tudo o que querias na vida.
Sei que há coisas que nunca soubeste que querias até teres filhos.
Eu sei que, às vezes, pensas que não estás a dar o teu máximo e que podias fazer melhor.
Eu sei que olhas para os teus filhos e te revês neles.
Eu sei que às vezes apetece-te atirar um candeeiro ao teu filho adolescente, e atirar o de 3 anos pela janela.
Eu sei que há noites que, depois de deitar os miúdos, estás tão exausta que só te apetece enrolares-te na cama a chorar.
Eu sei que há dias tão difíceis que só queres que acabem depressa.
Depois, na hora de ir para a cama os teus filhos abraçam-te e enchem-te de beijinhos, e dizem o quanto gostam de ti, e de repente querias que o dia durasse para sempre.

Mas nada dura para sempre. 
Os dias terminam, e o dia a seguir é um novo desafio. Febres, desgostos amorosos, trabalhos da escola, novos amigos, novos animais de estimação e novas dúvidas. E todos os dias, fazes o que tens de fazer.
Vais trabalhar, ou ficas em casa pões o bebé no sling e ligas o aspirador.
Ou vais até ao jardim passear com ele.
Largas tudo para moderar uma discussão sobre de quem é a vez de usar aquelas canetas especiais, para dar um beijinho ao óó da tua filha, ou para conversar sobre qual é a cor do batom que a mãe do Pinóquio usava.
Eu sei que fazes guerras de cocegas em castelos de lençóis, e que sabes de cor as histórias de, pelo menos, 8 livros ilustrados. Eu sei que danças de forma ridícula quando vocês estão sozinhos.
E que inventam canções parvas sobre queijo, maus cheiros, ou ervilhas.
Eu sei que uma hora depois de deitares os teus filhos, largas o que estás a fazer e vais cortar as unhas do mais novo. Sei que paras de arrumar a cozinha, porque a tua filha te convidou para a festa de chá que está a fazer com as bonecas, e faz questão que lá estejas.
Eu sei o que custou tratares dos teus filhos quando tiveste aquela virose de 4 dias.
Sei que comes os restos dos pratos deles, enquanto arrumas a cozinha.
Eu sei que não contavas com muitas destas coisas.
Sei que não antecipaste amar alguém tão intensamente, ou andar tão cansada, ou ser a mãe em que te vieste a tornar.
Pensavas que tinhas tudo planeado. Ou então, estavas perdida e aterrorizada. Ias contratar a Nanny perfeita. Ou ias deixar de trabalhar e aprender tudo sobre crianças.
Sei que não és a mãe perfeita. Por mais que tentes, e por mais que te esforces. Tu nunca serás a mãe perfeita.
E isso, provavelmente, vai perseguir-te. Ou se calhar fizeste as pazes com isso. Ou talvez nem nunca tenha sido um problema.
Eu sei que acreditas que independentemente do que fizeres, poderias ter feito sempre mais.

A realidade é outra. 
Não interessa o pouco que fizeste, no fim do dia os teus filhos vão sempre amar-te. Vão continuar a rir para ti, e acreditar que tens poderes mágicos que podes curar quaisquer coisas.
Independentemente do que acontecer no trabalho, na escola, ou num grupo de amigos, tu fazes, sempre, tudo o que está e não está ao teu alcance para garantir que no dia a seguir os teus filhos estarão tão felizes, saudáveis e espertos quanto é possível.

Há um velho ditado iídiche que diz: “Há um filho perfeito no mundo, e todas as mães o têm.” 
Feliz ou infelizmente, não há pais perfeitos. Os teus filhos vão crescer determinados a ser diferentes de ti. Vão crescer com a certeza de que não vão pôr os seus filhos nas aulas de piano, de que vão ser mais brandos, ou mais rigorosos, ou ter mais filhos, ou ter menos, ou não ter nenhum.
Um dia os teus filhos vão estar a correr como loucos na igreja, a portar-se pessimamente no restaurante a fazer caretas para o lado, e alguém vai passar e elogiar a tua família.

Uma certeza podes ter: não és perfeita! 
E isso é bom. Porque na realidade, nem os teus filhos são perfeitos. E ninguém no mundo se preocupa mais com eles do que tu, ninguém sabe porque é que eles estão a chorar senão tu, ninguém percebe as piadas deles melhor do que tu.
E já que ninguém é perfeito, tens de desempatar com 2 biliões de pessoas que estão em primeiro lugar “ex aequo” para concorrer à melhor mãe do mundo.

Parabéns melhor Mãe do Mundo.
Tu não és perfeita. És mais que perfeita:
És tão boa mãe como o resto do mundo.

por Lea Grover em Becoming a super mommy 
adaptado por Up To Lisbon Kids

Gabriel García Márquez

RIP

Imagem da WEB composição by Alegna

"Nunca deixem de perseguir os vossos sonhos" foi uma das suas mensagens !

"O Despertar da Primavera"

... foi  primeira produção da Casa da Criatividade*.


Esta peça de teatro musical “O Despertar da Primavera”, uma das mais premiadas da história do teatro e estreou agora em S. João da Madeira como a primeira produção própria da Casa da Criatividade. Com um elenco totalmente português, a peça foi encenada pelo próprio diretor artístico, Fernando Pinho, e o desenho de som do técnico sanjoanense Sérgio Correia.




imagens retiradas da web

São apenas 13 os atores que dão vida ao texto escrito no final do século XIX. Fernando Pinho, o diretor artístico, refere “Escolhemos "O Despertar da Primavera" por diversas razões. A primeira é que, sendo dirigida às diferentes gerações de cada família, trata de temas tão atuais como o aborto e a homossexualidade”

O New York Times considerou este espetáculo o mais relevante dos últimos 10 anos. Uma peça que convida os espetadores de todas as idades a experimentarem, de novo, a sua juventude. A peça esteve quatro dias em exibição na Casa da Criatividade e eu assisti precisamente à ultima apresentação.
ADOREI !! INESQUECÍVEL !! Um óptimo trabalho, desde a interpretação, ao canto, à encenação, ao som ao cenário figurinos e tudo. Gostaria de ver este musical em exibição noutras salas de norte a sul de portugal :)



Ficha técnica:
Autoria: Steven Sater
Encenação: Fernando Pinho
Actor(es): Ana Regueiras, André Lourenço, Brienne Keller, Bruno Pina, David Salvado, Gabriela Barros, Inês Alves, João A. Guimarães, João Cunha, Jonas Cardoso, Nuno Medeiros, Tânia Azevedo, Sofia Nicholson
Cenografia: Alberto Sá
Tradução: Sara F. Costa, João A. Guimarães
Figurinos: Luísa Costa
Música: Duncan Sheik



* A Casa da Criatividade surge da intervenção efetuada ao antigo Cinema Imperador, inaugurado no Dia de Natal de 1958 e adquirido pela câmara municipal de SJM em 1999. Este espaço é assim transformado numa sala multifuncional, com seis configurações diferentes e tecnologia de ponta.

"A minha janela"

... romance de autoria da minha amiga Rosa Familiar.

foto by Sonhadora

Hoje foi a estreia a solo da minha amiga, Rosa Familiar. Depois de participar em várias colectâneas de poesia, lançou hoje um romance "A minha janela" no bar Ar de Rock em Lourosa. 

foto by Sonhadora 

Rosa Familiar é professora, poetisa e escritora, nasceu em Arrifana e residente actualmente na cidade de Santa Maria da Feira. Estava muito feliz e rodeada da família, de alunos, colegas e de muitos amigos e companheiros de outras aventuras. 

Eu fui com a Xana e com a Filo, e claro que lá estavam muitos dos nossos companheiros da Teia dos Sentidos. Este momento especial da Rosa Familiar, fez-nos recordar com saudade momentos e tempos distantes :) 

Falando da obra "A minha Janela" ela é para a autora "para se parar nem que seja um minuto nas nossas vidas... parar para reflectir o amor". São histórias paralelas de duas amigas que se cruzam nas encruzilhadas da vida. 

A Rosa informou-nos que todos os livros vendidos no dia do lançamento será retirado 1€ que reverterá a favor da instituição Carlos Alberto Souto, instituição que apoia jovens com problemas.



Sabes que também ...

... podes ralhar com os teus pais?

    

Conheci este projecto da Maria Inês de Almeida e do Paulo Galindro no 4º Encontro Nacional de Ilustração. Fiquei imediatamente deliciada, pois acho que os filhos podem e devem ralhar com os pais. Tive também o privilégio de ver as ilustrações originais do Paulo Galindro, que são magnificas muito bem pensadas e a ligar harmoniosamente com o texto.

Este projecto nasceu da Maria Inês de Almeida que teve a ideia e soltou as palavras. O ilustrador Paulo Galindro juntou-se depois ao projecto, e nasceram então duas obras que vão deixar crianças e pais deliciados com a originalidade dos temas e das ilustrações.

Sabes que também podes ralhar com os teus pais? e Sabes onde é que os teus pais se conheceram?,  livros que estão à venda por 11.99€, apenas nalguns estabelecimentos, por exemplo na FNAC. São livros com um olhar infantil, que vão libertar  a imaginação das crianças e adultos e fazer nascer perguntas. Obras que vão fazer pais e filhos ficar ainda mais próximos. «Para além do amor, as palavras, as histórias são o mais precioso bem que se pode oferecer a uma criança. Soltam-lhe, hoje, a imaginação e são, amanhã, o tesouro que guardará toda a vida.», acredita Maria Inês de Almeida, razão pela qual decidiu escrever para todas as crianças.

Sabes que também podes ralhar com os teus pais? ensina às crianças que também elas têm o direito de se zangar quando os pais se não se “portam bem”: quando não reciclam o lixo; não têm paciência para ouvir as histórias dos filhos; em vez de brincar só querem ler o jornal; trabalham muito e chegam a casa tarde ou quando vêem televisão às refeições porque têm de ver “uma coisa” (mas os filhos não podem). É também um livro para os pais também aprenderem que, às vezes, as crianças têm razão para ralhar com eles. Mas sem falar alto… claro! [e este eu vou comprar ... para daqui a uns anitos dar aos meus netos :P]

MUSA …

… museu subaquático em Cancun protege os recifes de coral.


As águas cristalinas de Cancun, no México, não oferecem apenas uma fantástica vista à superfície. Escondem um verdadeiro tesouro nas profundezas: um museu de arte subaquático.

Jason DeCaíres é o responsável pelas várias exposições - entre elas “A evolução silenciosa”, composta por 400 esculturas humanas, em tamanho real, que representam a mudança e a transformação dos seres ao longo dos tempos.




O MUSA tem praticamente tudo o que qualquer outro museu tem. Tem arte, história e está aberto ao público. A grande diferença está no facto de que, aqui, não existem paredes. O Museu Subaquático de Arte está instalado dentro do Parque Marinho de Cancun, submerso.

Os primeiros passos para a construção deste ambicioso projecto foram dados em 2009, por Jaime Gonzalez Cano, Roberto Diaz e Jason DeCaires Taylor. Este último, (re)conhecido artista pelos trabalhos já realizados nas profundezas de outros mares, é, para além de director artístico do museu, responsável e criador das várias exposições apresentadas.
Depois de uma infância passada entre as águas da Malásia e uma formação superior em Escultura e Cerâmica em Londres, Jason DeCaires trabalhou vários anos como instrutor de mergulho, ao mesmo tempo que investia também na fotografia subaquática.

Granada, nas Antilhas

A sua forte ligação ao mar, o fascínio pela natureza e as actividades a que se foi dedicando levaram-no, em 2006, a criar o primeiro parque subaquático de esculturas em Granada, nas Antilhas.
Três anos depois, já estavam a ser projectados o MUSA e algumas exposições - entre elas “A evolução silenciosa”. Composta por 400 esculturas de formas humanas, em tamanho real, todas as figuras foram inspiradas em pessoas, sobretudo habitantes mexicanos - de todas as idades e classes sociais, de ambos os sexos. As primeiras trezentas esculturas foram colocadas em Agosto passado e as restantes cem, no mês de Novembro.



Numa espécie de linha de tempo, num profundo momento de silêncio e concentração, as esculturas de Jason DeCaires representam as mudanças e a evolução do ser humano ao longo dos séculos. E, tal como nós, elas próprias também mudarão a sua aparência. Fabricadas com materiais que não prejudicam o meio ambiente (cimento marinho, areia, pequenas rochas, varetas e coral vivo), vão permitir a multiplicação das espécies. Ou seja, com o passar do tempo, vão transformar-se em recifes artificiais, onde será possível recomeçarem a crescer outros (novos) recifes.
Este processo irá não só contribuir para a conservação da vida marinha do parque, como desviar futuros mergulhadores do local, diminuindo assim o impacto no habitat.

“A evolução silenciosa” é, sem dúvida, uma forte atracção turística. Uma exposição interactiva, onde os visitantes mergulham nas águas mexicanas e podem explorar as obras nadando à sua volta. E, dependendo do momento do dia em que o façam, a vida subaquática vai encarregar-se de apresentar as esculturas com “diferentes visões”.



Por detrás de tudo isto está o principal objectivo de Jason DeCaires: alertar a população para a protecção do meio marinho. O artista inglês incorpora nas suas esculturas o poder transformador e sobretudo regenerador da natureza. A partir deste ano, o MUSA vai contar com a participação de outros artistas, que queiram “unir” as artes e a ciência, repovoando o fundo do mar duma forma bela.

Fonte: OBVIOUS

BIC Cristal ...

... comemora hoje 60 anos e assinalada a data com edição limitada em ouro e prata.


Uma das esferográficas mais famosas do século passado faz 60 anos. Ao longo do tempo a BIC Cristal tornou-se numa esferográfica de culto e conquistou mesmo o estatuto de obra de arte, fazendo parte da colecção permanente do Museu de Arte Moderna em Nova Iorque (MoMA) e o Museu Nacional de Arte Moderna do Centro Georges Pompidou, em Paris.

Para assinalar a data, foram criadas duas edições especiais, uma em ouro e outra em prata. A BIC Cristal dourada (com tinta azul) e a BIC Cristal prateada (com tinta preta) são vendidas num blister, já disponível em papelarias e supermercados, com as duas unidades e prometem tornar-se rapidamente num objecto de coleccionador.

«O prateado e dourado são as cores certas para marcar os 60 anos da BIC Cristal, a esferográfica de culto que depressa conquistou um grupo de fiéis seguidores, transformando-se num produto tão universal quanto indispensável.», refere a empresa que a comercializa em comunicado.

Os primeiros exemplares destas esferográficas foram lançados em França em Dezembro de 1950, cinco anos antes do barão Marcel Bich se ter juntado a Edouard Buffard para criar uma empresa que fabricava peças para instrumentos de escrita em Clichy. Quando as primeiras canetas esferográficas começaram a aparecer no mercado, Marcel Bich reparou na velocidade que estas conferiam à escrita e apercebeu-se de que poderiam revolucionar o negócio.


Com esse intuito, comprou a patente da caneta desenvolvida pelo húngaro Laszlo Biro e começou a conceber a fórmula de tinta ideal, o encaixe perfeito entre a esfera e o tubo de tinta, utilizando a habilidade e a técnica dos relojoeiros suíços, com a preocupação de conceber um objecto atractivo e funcional.

Após trabalhar intensivamente durante vários anos ao ponto de colocar todo o capital da sua empresa em risco, lançou os primeiros exemplares da esferográfica no mercado em 1950. Chamou-lhe BIC Cristal, custava apenas 50 cêntimos franceses e era recarregável. O sucesso foi imediato!

«Hoje, 60 anos depois, continua a ser fabricada pela BIC nas suas próprias fábricas em França, no Brasil, no México e na África do Sul, em máquinas que também foram desenvolvidas pela própria companhia. E a empresa também fabrica a sua própria tinta, para garantir uma experiência de escrita suave e de alta qualidade», asseguram os seus responsáveis em comunicado.

Em Portugal a famosa caneta, que ainda hoje é um fenómeno de vendas, surgiu há 54 anos e ficou na memória de muitos graças ao famoso anúncio de televisão, que se pode rever no vídeo abaixo e que ficou na memória de gerações de portugueses.


Fonte: SOL

ELOGIO ao AMOR

por Miguel Esteves Cardoso

Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.

Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.

Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.