Uta Melle

"Será que vou deixar de ser sexy?"


Poucos dias antes de completar 40 anos, a alemã Uta Melle, soube que teria de tirar os dois seios, por causa de um cancro da mama. 

De imediato surge a dúvida: "Será que vou deixar de ser sexy?", mas teve a certeza que não ao consultar o marido, um publicitário bem-sucedido que a presenteou com um quadro de uma guerreira amazona que cortara o próprio peito para usar melhor o arco e a flecha.


Assim, Uta Melle partiu para um projeto singular: fotografar mulheres com histórias semelhantes. O trabalho rendeu um livro de arte e a exposição fotográfica "Amazonas", que são mulheres nuas, e a ideia é incomodar. Nas fotos, 19 mulheres, entre 30 e muitos e 50 e poucos anos, estão nuas ou seminuas. Muitas, em poses sensuais. Em comum, os sinais da batalha contra a doença: algumas têm um único seio, outras próteses, outras apenas cicatrizes no colo.

A publicitária que deixou o mercado, a alemã virou uma espécie de activista da causa, lutando contra o preconceito e a favor de mais verbas para pesquisa. "Aqui, a doença ainda é um tabu. Os alemães não suportam ver cicatrizes nem mutilações. Acham que é sinal de derrota. Trauma de duas guerras mundiais", diz Uta.

Em Berlim, mais de mil pessoas visitaram a exposição em duas semanas. Mas houve quem não gostasse.



O jornal de esquerda "Junge Welt" publicou um artigo dizendo que o livro não fazia uma abordagem séria do assunto. Já o tabloide "Bild", que vende milhões de exemplares por dia e costuma ostentar fotos de mulheres nuas e opulentas na capa, reagiu com simpatia, embora alguns leitores tenham feito comentários pouco gentis.

Com sua beleza andrógina, as fotos bombaram na internet. E ajudaram Uta a recrutar as 18 mulheres para o ensaio fotográfico das amazonas, feito num estúdio em Berlim. O ensaio é executado por duas fotógrafas alemãs, Esther Haase, profissional com vários trabalhos internacionais, e Jackie Hardt, ex-modelo que passou para o lado de trás das lentes.



Nele, as mulheres aparecem vestidas de guerreiras ou em cenas de protestos, com cartazes na rua. Toda essa pose de poder tem um fundo de melancolia. "É um tema muito delicado, que mistura o medo da morte ao da perda da feminilidade", diz Uta.
Como muitos alemães, ela sempre tomou banho de Sol e mergulhou nua nos lagos. Depois da cirurgia, não mudou o velho hábito. As pessoas reparam, mas Uta não abre mão de se bronzear nua. "As crianças são sempre mais fáceis de lidar. Elas perguntam, eu explico. Mas os adultos reagem de um modo estranho, muitos fingem não ver." Quando ela entra para fazer ginástica, tem gente que disfarça e sai da academia.


Uta ainda sente saudade dos seios. Mas já resolveu: não vai colocar prótese de jeito algum. Está convencida: ainda pode ser sexy. Ela hoje acha que também pode fazer piada do infurtúnio: "Pelo menos, meus peitos não podem mais cair".